Dicotomias, sonoridades urbanas e um encontro com Fernando Pessoa

28 Nov 2021

Fátima Lacerda.

livro Mensagem da biblioteca do A Brasileira

Lisboa se tornou uma das capitais mais pulsantes da Europa. A efervescência se mescla com travessas e ruelas que remetem ao passado, a um espaço de caráter bucólico como à uma placa de rua ou ao nome sugestivo dela.

Ter os pés sobre as calçadas de Lisboa, cheias de imperfeições (um desafio para sapato de salto alto), é uma permanente viagem que também passa também por influências africanas, muçulmanas e decerto, pelo tempo de grandes descobertas e conquistas.

Provavelmente muitos turistas que peregrinam de trem ou pedalam até o Monumento aos Navegantes à beira do Rio Tejo, mal saberão que o Império português foi o primeiro global da história, a partir da conquista de Ceuta em 1415 e que no século XVI, o mundo era dividido entre Portugal e Espanha. Frente ao cenário mundialmente conhecido, são os Pastéis de Nata (ou Pastéis de Belém) as imagens mais comuns postadas no infinito mundo da web, ratificando o lado mundano da cidade, ao mesmo tempo a instigante (para dizer ao mínimo) insustentável leveza desse povo, em sua forma de viver um dia de cada vez. Esse Lebensgefühl é, sem dúvida, um fator magnético. O frescor, resultante do despreendimento de que se o mundo acabar amanhã, não serão informados e nada poderão fazer, é uma brisa de primavera, comparando a supremacia da dialética absoluta do copo meio vazio, inabalável e invicta, em solos prussianos.

Fazer a festa, se esbaldar até o sol raiar, em Lisboa, não gera dicotomias. São aspectos que co-existem inusitada- e pacificamente com a »outra« cidade, aquela que, depois do cair da noite, se percebe em passeios noturnos pelo Rossio, acompanhados do barulho dos carros de garrafas de vidro colhidas todas as noites sob igualmente irritante e inconfundível sinfonia. Dependendo da hora e do local, solos lisboetas são uma cadência mais ou menos harmônica entre o silêncio, a mistura de vozes e línguas nos bares, no chiado e no barulho que, ao longo da estada, vão alinhavando uma Trilha Sonora, por vezes, ritualizada.

O barulho do caminhão que às 06 horas da manhã estaciona debaixo da tua janela para esvaziar os recipientes abarrotados de garrafas de vidro, irrita, mas dias depois, ele fará parte de um ritual que te faz pertencente a esse lugar e cúmplice de seus rituais.

Caminhadas pelo Jardim Botânico, um final de tarde no Mirante ou simplesmente um sentar num dos bancos de mármore da Praça dos Restauradores no início da madrugada e contemplar a austeridade delineada na arquitetura e no prédios dos Grand Hotels, arredondam um mosaico de possibilidades de como sentir a cidade durante os dias e na hora em que toda a sua beleza aflora, quando a noite cai. O mais instigante na capital lisboeta é a co-existência pacífica dos antagonismos e diversidades e isso se extende à inúmeras nacionalidades que aqui chegam. Muito idiomas, muitas cabeças e corações chegam aqui com muitos planos com a ânsia de inovar e ousar na cidade que, durante 10 meses ao ano, é acariciada pelo sol.

O poeta Manuel Alegre foi certeiro, ao descrever o ritmo da cidade, em seu poema

 

Em cada esquina te vais

Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo

Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Nas manhãs da tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente

Esta é a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas

Em cada dia te vais.
Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem

Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem
Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem

Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém 

 

Muito chiado!

O bairro Chiado é o pedaço de asfalto convulsivo que embaralha propositalmente tudo que exala sonoridade e ruído urbanos, visível, por exemplo, nas filas já demasiadamente longas já às 17 horas em frente ao Restaurante »Taverna da Rua das Flores«, perto da pracinha onde o bondinho Número 28, que atravessa a cidade, tem ponto ou no über-caótico restaurante Casa da Índia, a poucos metros da embaixada do Brasil, ponto de grande procura de exilados de um país sequestrado, amarrado e só respirando por aparelhos.

 

Escadas não rolantes

Quem consegue sair da estação de metrô Baixa Chiado que se assemelha a um Bunker. com suas quatro escadas (não) rolantes e do tipo Moscow, e quase sempre desativadas, irá se deparar com cenário digno de um laboratório social: o brasileiro que ao mesmo tempo que vende jóias colocadas em cima de um tapete no chão e chama pela freguesia, tem pendurado no tórax um violão e ao mesmo tempo que conversa com seu compatriota no outro lado da saída do metrô. São vários Plots simultâneos que se revelam alí, naquele lugar outrora tranquilo e reduto de pessoas tímidas, arredias a qualquer tipo de barulho.

Em frente ao café »A Brasileira« as interações e fricções, esbarros são regojizo para quem gosta de observar: pessoas se encontram, se despedem, turistas entram no TukTuk, táxi da moda, modelo mais favorisado pelos espanhóis em grupos e seu peculiar Joir Vivre mediterrâneo. Os motoristas do TukTuk unem qualidades de animadores, guias turísticos e psicólgoos. A proveniência é uma das primeiras perguntas a serem feitas; para quebrar o gelo. Porém os espanhóis, seres superiores no quesito comunicação, não necessitam desses utensílios.

 

Melancolia

Todas às vezes que me deparo com a estátua de Fernando Pessoa, me vejo acometida de profunda melancolia em vê-lo sendo consumido como O OBJETO de desejo e fama de turistas que ali vão tomar uma café ou mesmo só para dar um rolê no Point.

Apesar da multidão que diariamente ali se encontra, até hoje não se teve notícia de roubo do chapéu do poeta, bem ao contrário da estátua do outro poeta, Carlos Drummond de Andrade, na Praia de Copabacana, do outro lado do oceano. Roubar óculos ou chapéu de um poeta, é pisar em sua obra, arrancar dela a aura de dignidade. 

O Café »A Brasileira« é um dos pontos mais visitados de Lisboa e como tantos lugares em Portugal, remetem ao país Colônia, em aluzão à madeira vermelha facilmente incendiável.

Adriano Telles, um português imigrado para o Brasil e que se casou com a filha de um dos maiores produtores de café da região das Minas Gerais foi quem deu início a que seria uma longa história. Ao retornar do Brasil á sua Terra Natal, Telles criou »A Brasileira«, inaugurada em 1905.

xícara do café A Brasileira acompanhada de um doce

Nesse lugar que remete às Casas de Café europeias, com seus lustres imponentes, espelhos decorados com folhas de ouro, barulho teimoso das xícaras ao serem depositadas de forma capenga nos pires. coreografia matemática dos garçons, encontros, despedidas para o dia seguinte ou aqueles para nunca mais, o poeta Fernando Pessoa, tímido e arredio a tumultos, escrevia seus poemas e degustava, não um café, mas uma boa Ginginha numa das mesas do local. »A Brasileira« foi também ponto de encontro de intelectuais, além de Pessoa, o pintor Nikias Skanipakis, o arquiteto e cineastas Noronha da Costa ou o pintor Carlos Calvet.

O lugar para encontros em Lisboa é semelhante ao »Römisches Café« fundado em 1901 em Berlim. Apelidado de Café Romano devido à sua decoração interior no estilo neo-romano, também era local de encontro de intelectuais e artistas. Como »A Brasileira«, foi testemunha de convulsões ao longo da história. Enquanto »A Brasileira« sempre esteve no mesmo lugar, o »Römisches Café« já itinerou algumas vezes. Ao contrário do »A Brasileira«, que (apesar de todo o barulho) mantém viva a cultura e poesia de outrora, o »Römisches Cafe«, hoje acoplado ao complexo hoteleiro Ritz Carlton, caiu nas garras da burguesia.

 

Delícias mundanas

Nem sei se as delícias como Pão de Deus, Bomba de Chocolate, Palmier ou o Jesuíta já eram degustáveis naquele tempo em que o poeta procura mais do que o sossego, mas de anonimidade em estar consigo no meio de toda a gente.

doces na vitrine do A Brasileira

Vislumbrar a vitrine com deleites para comer rezando, é coisa para ficar de joelho mole. Porém quem procura no »A Brasileira« um lugar silencioso, será em vão. Mesmo assim. A permanência dentro desse Café, preferivelmente no final da tarde, é uma viagem no tempo, um lugar de trocas, por vezes platônicas. Entre delíciais mundanas, entre de outrora a cidade pulsante de hoje lugar de peregrinação de um formigueiro de turistas, fascinados pelo Joir Vivre lisboeta, ainda existe o bucólico, mas é preciso procurar. E talvez ele esteja dentro de quem vai fazer uma visita ao poeta. Com ou sem delícias mundanas.

No meio da coreografia meticulosamente ensaiada de os garçons entrando para pegar o pedido e os levando para mesas do lado de fora, vislumbrei um homem alto, de sorriso gentil e postura de anfitrião. O perguntei pela senhora que há 4 anos atrás, vendia jornais na banca que fica dentro do Café, e a quem fotografei em seu ambiente de trabalho. Aproveitando o acaso, passei ali para dar um alô. Durante a prosa, descobri que o homem gentil e sempre atento, o tempo todo, a tudo o que acontece é Miguel e a senhora que fotografei em 2016, sua mãe, nesse meio tempo, aposentada. Sensação de alívio. Havia pensado o pior. Agora, a ex-banca de jornais é lugar bem-vindo de prosa, exibe cartões postais com pontos turísticos da cidade assim como panfletos contendo eventos culturais.

Senhor Miguel responsável cultural do A Brasileira

A noticia de que fui eu quem fotografei sua mãe, deixou Miguel cheio de orgulho e surpreso pela coincidência. Engrenamos um dedo de prosa. Disse que sou jornalista e que vivo em Berlim. Ele se revelou a pessoa responsável por toda a parte cultural do »A Brasileira«, enquanto caminhava em direção à uma vitrine. Esboçando sorriso pincelado de satisfação, ele me apresentou »Mensagem«, uma edição especial lançada em 16 de abril de 2021 com 25 poemas de Fernando Pessoa. Enquanto fala sobre o livro, aponta para uma das mesas e diz: »Alguns desses poemas, ele escreveu aqui.«

O livro custa 25 Euros e só pode ser adquirido no local. Quando abri a obra literária de gráfica discreta, já que são as letras qie deverm protagonizar, notei elegância do papel usado, que faz da leitura, um deleite sensorial ainda mais completo.

Quis saber se Miguel organiza Salões de Leitura e quais são os convidados. Para o final da tarde daquele dia, segundo ele, já havia um agendado. Aliás em Lisboa, Salão de Leitura é parte constante na programação das livrarias, entre elas, a Da Travessa (a única filial da martriz carioca em Lisboa). Ela fica perto do Jardim Botânico, e oferece um banquete em forma de sortimento de livros e respectivos cantinhos para explorá-los.

Durante a prosa com Miguel, sempre interrompida por algum funcionário ou mesmo pela coreografia dos garçons pelo longo corredor do Café, Miguel me mostrou a estante. Nela, os exemplares posicionados de forma elegante e logo notáveis para quem entra no lugar.

»A Brasileira«. Cercada por uma urbanidade convulsiva, não perdeu a essência principal: o cultivo da memória viva de Fernando Pessoa, algo que para Miguel, pelo esmero e sensibilidade poética, decerto é sua vocação. Além exercer o papel de anfitrião para quem chegar ou tiver paciência para a fila das concorridas mesas do lado de fora, ele é também um embaixador da cultura portuguesa. Quando perguntei em quantos idiomas o »Mensagem« está disponível, ele respondeu: »Em cinco idiomas, para a que poesia de Fernando Pessoa seja ouvida no mundo«.

Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim desde 1988 e testemunha de época da Derrubada do Muro. É formada em Letras (Português & Inglês), tem estudo básico de Ciências Políticas na Universidade Livre de Berlim e formada em Gestão Cultural e de Mídia na Escola Superior »Hanns Eisler«.É Curadora de Filmes, Jornalista Free Lance para para os principais veículos do Brasil, entre eles o Portal UOL Esporte e blogueira com artigos sobre cultura e viagens e gastronomia. Cinema, Política, e Futebol são suas paixões.